segunda-feira, 19 de abril de 2010

A OBRA DE ARTE NA ERA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA



A OBRA DE ARTE NA ERA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA

Walter Benjamin, em seu ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, destaca três eixos centrais, capitais para o trabalho empreendido, que dimensionam a questão da obra de arte na era de sua massificação: a sua reprodutibilidade através da técnica, a sua autenticidade e a destruição de sua aura. Benjamin adota uma postura marxista, ao “buscar as tendências evolutivas da arte nas atuais condições produtivas” (p.166), se preocupando, ao mesmo tempo, com as perdas e ganhos desse movimento que, por sua vez, é impulsionador de novas experiências artísticas ou, como será colocado de forma negativa, de novas formas de entretenimento.

Para Benjamin, “a obra de arte sempre foi reprodutível” (p.166), representando algo constitutivo de sua essência. Entretanto, isso não significa que toda obra era reproduzida, pois muitas - por serem sagradas - eram mantidas como experiências singulares. Tal reprodutibilidade, porém, desempenha um caráter de difusão, mas que ainda situava-se, predominantemente, num âmbito manual. A experiência da reprodutibilidade, a qual Benjamin relata , apresenta-se de modo muito mais acelerado e dinâmico – fazendo com que a cópia atinja, assim, uma incrível qualidade quando comparada com a obra original. A reprodução da imagem (na fotografia), tal como exemplifica, se encontraria no mesmo plano que a palavra oral; o que significa dizer que de um único elemento pode-se, rapidamente, seguir-se uma infinidade de “elementos-cópias”.

A reprodutibilidade afeta diretamente a questão da autenticidade; questão que, tradicionalmente, foi atrelada à própria existência da obra: uma obra só seria obra de arte uma vez que fosse autêntica, ou seja, que a sua existência fosse única, assim como sua história. “O aqui e agora do original constitui o conteúdo da sua autenticidade” (p. 167). Quando nos referimos à reprodução manual a autoridade da obra é mantida, mas - como atesta Benjamin -, com o advento da reprodução técnica a distinção entre a obra e sua cópia, antes encarada como falsificação, torna-se muito mais complexa, por uma questão mesmo de autonomia que a técnica possui em relação ao manual. Mesmo que o conteúdo permaneça intacto, o aqui e agora da obra deixa de ser único: sua autenticidade passa para segundo plano em prol de uma apropriação de seu conteúdo. Consequentemente, a aura da obra (entendendo-se como seu invólucro, sua aparição única) é perdida: sua singularidade cede lugar a uma existência serial.

Benjamin, por sua vez, tenta nos mostrar as implicações de tal cenário. Assim, a obra de arte torna-se mais acessível, destacando-se da tradição e deixando de ser somente um culto do Belo - podendo a reprodução, inclusive, exaltar certas perspectivas, iluminar certos pontos que antes não eram visíveis, ou seja, direcionar a percepção para uma possível leitura criativa e inédita. O cinema, uma espécie de sucessor da fotografia, seria seu exemplo mais notório, uma vez que, sendo a reprodução do som e da imagem, representa uma nova atitude daqueles que o empreendem (atua-se diante de uma máquina), além de poder resultar em uma diferente experiência perceptiva, dependendo do foco dado pela câmera. Visa, portanto - e fundamentalmente -, a exposição, pois sua técnica torna quase que obrigatória a difusão em massa. Abre-se, aqui, espaço para a exposição das convulsões sociais e de uma possível tomada de consciência. “Em vez de fundar-se no ritual, ela [a arte] passa a fundar-se em outra práxis: a política” (p. 172).

Um dos pontos negativos enumerados por Benjamin é sua mera receptividade, quando a reprodução empobrece a obra, tornando-a “mais receptível”, não exigindo, por isso, um trabalho de reflexão. Há uma tendência irresistível de possuir o objeto, marcada por um caráter imediato, sob o signo da repetibilidade. Da mesma forma que possui uma função de despertar, a arte - encarada como consumo - poderia ser um mero fator de alienação. Nesse caso, não aplicada de uma forma criativa.

“A arte contemporânea será tanto mais eficaz quanto mais se orientar em função da reprodutibilidade e, portando, quanto menos colocar em seu centro a obra original.” (p.180). O caráter positivo destaca-se no âmbito da novidade, da criação, juntamente com o social e suas formas de recepção, pelo próprio fato de que “a reprodutibilidade técnica da obra de arte modifica a relação da massa com a arte” (p.187).


Obra trabalhada: BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica [primeira versão]. In: Obras escolhidas I: Magia e técnica, arte e política. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.



Um comentário:

envelope vermelho disse...

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