sexta-feira, 8 de outubro de 2010

ANGÚSTIA E LIBERDADE


ANGÚSTIA E LIBERDADE

Um pequeno ensaio a partir de Jean-Paul Sartre[1]

O homem é angústia

“Assim, procurando-me a mim, sabia já a resposta que eu iria lhe dar, e eu tinha somente uma resposta a dar-lhe: você é livre, escolha, quero dizer, invente

– Sartre

Existência, liberdade e responsabilidade. Tais conceitos tornaram-se uma tríade importantíssima na filosofia de Jean-Paul Sartre, conhecida como existencialismo. Gostaríamos de propor, no seguinte trabalho, uma visita a tais conceitos, sem pretensão alguma de esgotar a riqueza dos mesmos ou de resolver as inúmeras problemáticas nas quais eles nos lançam. Queremos mostrar em que medida o itinerário existencialista nos conduz a uma filosofia da escolha, da ação e do compromisso, fato que a tornou uma das correntes de pensamento que mais marcaram a segunda metade do século XX e que tornaram Sartre um símbolo de intelectual engajado.

Tomaremos como base O Existencialismo é um Humanismo, obra na qual Sartre tenta responder as inúmeras críticas recebidas com a divulgação da doutrina existencialista em O Ser e o Nada. Empreende tal obra como a oportunidade de nos mostrar o otimismo inerente ao existencialismo, pois tal corrente de pensamento coloca o homem no centro de suas próprias escolhas – descartando o apoio em um além-mundo, em Deus ou em uma natureza humana dada –, embora nos mostre que esse homem é também angústia. Pretendemos relacionar angústia e liberdade, assim como o fez Sartre, mostrando como a primeira é condição da livre ação.

O existencialismo tem como uma de suas teses principais a de que “a existência precede a essência”. Essa tese, porém, vale somente para o homem: tirando esse ser-para-si (a consciência, o homem) – e partindo de uma “visão técnica” –, o mundo é composto por seres-em-si, ou seja, objetos que são definíveis de antemão, que estão bem colocados diante de mim. Imagine,

um objeto fabricado, como por exemplo um livro ou um corta-papel: tal objeto foi fabricado por um artífice que se inspirou de um conceito; ele reportou-se ao conceito de corta-papel, e igualmente a uma técnica prévia de produção que faz parte do conceito, e que é no fundo uma receita. Assim, o corta-papel é ao mesmo tempo um objeto que se produz de uma certa maneira e que, por outro lado, tem uma utilidade definida. (SARTRE, 1973, p. 11)

Partindo dessa divisão, podemos dizer: primeiro, que no caso do ser-em-si a produção precede a existência, ou seja, um conjunto de regras já determina o seu vir-a-ser; e, segundo, que no caso do homem – sendo esse uma recusa de ser substância, uma recusa de ser-em-si – é preciso que ele primordialmente exista para que só depois atinja um atributo, ou seja, uma essência – uma definição. O homem não é um corta-papel, está muito além: enquanto o corta-papel é em-si, a consciência só é algo quando visa um outro que não ela mesma – a consciência é o que não é (ser consciência é não ser coisa, mas sim consciência de coisa) [2]. Em outras palavras: o para-si é portador de um vazio ontológico, de um nada.

O ponto fundamental do existencialismo prescinde da existência de Deus, pois, uma vez que o homem encontra-se para além de qualquer definição prévia, não é coerente afirmar que exista uma natureza humana que realizaria algum objetivo de um intelecto divino ou que, por de trás das aparências, exista uma finalidade que todos deveríamos seguir. Tais são as palavras de Sartre:

O existencialismo ateu, que eu represento, é mais coerente. Declara ele que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significará aqui o dizer-se que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. (SARTRE, 1973, p. 12)

Queremos destacar que não podemos falar em determinismo no caso da realidade humana: podemos falar, no máximo, em situações. Exaltando uma dignidade humana que difere o homem dos objetos – e aparta-o do determinismo psicológico – admitiremos, com Sartre, a impossibilidade de reduzir o homem a uma série causal, pois comprometeríamos, assim, um conceito intimamente ligado à existência. Esse conceito é a liberdade, sendo que essa não se distancia, de modo algum, da prática. Existir é ser livre e estar para além de toda e qualquer previsibilidade – que nos levaria a um “sim” (ou a um “não”) anterior a uma situação, como nos diriam os partidários de um determinismo absoluto do real, no qual os caminhos percorridos já estariam traçados num intelecto absolutamente infinito (a inteligibilidade integral do real de Espinosa, por exemplo). Ninguém pode decidir a priori, como diz o filósofo em sua obra.

Para Sartre, como já dito, existência é liberdade: o homem é permanente recusa de ser “uma coisa”. “Essa recusa de ser substância, essa negação radical de ser exatamente o que se é (‘como uma pedra, uma mesa, uma couve-flor’) é o ser próprio da consciência: essa recusa ou negação radical de ser, Sartre a nomeia liberdade[3]. Indo não muito além, chegamos à concepção sartreana de que o homem, sendo existência, é liberdade. Liberdade de dar sentido ao mundo e de se projetar no futuro: a consciência desse não-existente (o futuro) influi, por sua vez, nas ações presentes desse mesmo homem: tal situação é impensável para um em-si.

O existencialismo sartreano coloca a liberdade como condição humana – como uma realidade inescapável – pois em qualquer situação nos encontramos diante da impossibilidade da supressão de nosso poder de escolha. Na dificuldade de visualizar tal ideia – no caso, por exemplo, de um prisioneiro – podemos colocá-la como escolhas possíveis, mesmo que mínimas, frente a determinadas situações: o prisioneiro, em sua condição, pode escolher entre se revoltar, fugir ou se submeter a seu dominador. Tal como o prisioneiro da caverna, que se libertou (na alegoria da caverna, de Platão): devemos creditar essa libertação à escolha ou ao acaso? Sem nos ater a uma resposta final, poderíamos dizer com Sartre que “o homem está condenado a ser livre”, ou seja, que podemos muitas coisas, mas não podemos não escolher. E isso implica a total responsabilidade pelas consequências de nossos atos. Um covarde, para Sartre, é inteiramente responsável por sua covardia, pois sempre haveria a possibilidade de deixar de sê-lo através de seus atos.

Mas a quem ou a que devemos creditar a nossa liberdade? Sendo dada junto com a existência (que não tem uma essência prévia), a liberdade não encontra como fundamento algo que estaria para além do próprio homem; logo, quando tentamos nos ausentar de nossas escolhas, estaríamos negando nossa própria existência, o que é impossível segundo uma perspectiva existencialista sartreana. Criar uma máscara para nós mesmos, a qual tentaria nos ausentar da autoria de nossos atos, traduz-se em uma situação hipócrita que o filósofo nomeia de má-fé. Para Sartre, o sujeito é totalmente responsável por aquilo que ele é, pois sua subjetividade se dá somente como construção de seus atos. Faz-se necessário, então, entender o que significa tal responsabilidade e suas implicações gerais.

A responsabilidade é responsabilidade de uma escolha, pois

se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que ele é. Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade da sua existência. E, quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o homem é responsável pela sua restrita individualidade, mas que é responsável por todos os homens. (SARTRE, 1973, p. 12).

Esclarece, adiante, o filósofo:

Quando dizemos que o homem escolhe a si, queremos que cada um de nós se escolhe a si próprio; mas com isso queremos também dizer que, ao escolher-se a si próprio, ele escolhe todos os homens. Com efeito, não há dos nossos atos um sequer que, ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos. (SARTRE, 1973, pp. 12-13).

O homem, dada sua condição individual, encontra-se frente a um grande dilema. Sem uma essência prévia e condenado a sua liberdade, o homem estará apto, através de suas ações, a criar uma imagem individual para si, mas – ao mesmo tempo – se encontrará diante da possibilidade de criar uma imagem de homem que valerá para a humanidade inteira. De acordo com Sartre, quando agimos pretendemos ser “o representante de todos”, mesmo que, de fato, não sejamos: cabe ressaltar que estamos no domínio da relação consciência-mundo e também no campo das problematizações advindas de uma liberdade não determinada essencialmente. “Assim sou responsável por mim e por todos, e crio uma certa imagem do homem por mim escolhida; escolhendo-me, escolho o homem” [4], dirá Sartre.

A tríade existência-liberdade-responsabilidade tem tal encadeamento de ideias como possível. Entretanto, não podemos nos esquecer de um último elemento que gostaríamos de tratar em nosso breve ensaio: a angústia. O existencialismo foi acusado de pessimismo frente à existência humana ao exaltar tal sentimento como a condição mesma da ação, uma vez que o homem tornou-se o autor – o criador – de seus atos, e que implicariam uma imagem que valeria para todos. É esse sentimento de total responsabilidade, que nos toma de súbito, que Sartre chamará de angústia. Total responsabilidade, pois não podemos delegar ao outro, nem a Deus, a autoria de nossos atos – caso contrário, estaríamos no domínio da má-fé.

A angústia não é um obstáculo para a ação ou algo que nos separe dela. Como diz Sartre, a angústia é inerente à própria ação. Tal sentimento encontra-se no próprio seio da liberdade, pois – no fundo – nós sempre escolhemos sozinhos:

Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe [5], fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. [...] Não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas. [...] O homem é responsável por tudo quanto fizer. (SARTRE, 1973, p. 15).

Tal angústia é motivo para desespero? Não para Sartre, pois o homem insere-se num universo – autônomo – estritamente humano, fruto de sua decifração, de sua liberdade (que valora as coisas), encontrando-se, consequentemente, no horizonte da criação. Como a impossibilidade de fugir da escolha é uma condição humana, “o homem sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem” [6]. Podemos, então, afirmar que o homem é livre para a constituição de um projeto (“um lançar-se adiante no futuro”) que é individual, mas que possuí também um valor universal (“universal”, pois essa palavra traz consigo um enorme número de teses tributárias da filosofia tradicional). Tal projeto é, de certa maneira, compreensível por todos os homens enquanto projeto humano.

O existencialismo ateu de Sartre abre um horizonte otimista ao homem pelo fato de atribuir-lhe a criação de seus próprios valores (tanto aqueles que o exaltam como aqueles que o enfraquecem). Visualizemos isso através de um exemplo um tanto redutor. Somente depois de estipuladas as metas, ou os diversos projetos de vida, é que nós podemos falar dos obstáculos que se lhe impõem: se me projetei como um professor de filosofia, tudo que caminhe contra esse projeto será considerado maléfico e tudo que o beneficie será considerado benéfico.

O compromisso de tal doutrina é claro: teoria e prática não devem jamais se dissociar. Em algum momento deveremos representar a teoria na ação, caso contrário, estaremos faltando com nossa responsabilidade. As teorias, porém, não são absolutas, pontuando, assim, mais uma característica dessa filosofia, a saber, o seu caráter aberto e inventivo. “A liberdade é absoluta ou não existe” [7] é uma tese, porém, fundamental – e forte – que perpassa toda a filosofia existencialista e que ataca, sem reservas, o determinismo, colocando o ser humano como autor de sua própria história.

Para concluir lembremo-nos de Nietzsche, no aforismo 343 da Gaia Ciência, ao comentar o fato de que “Deus está morto”:

Será que ainda estamos demasiadamente dominados pelas primeiras consequências desse acontecimento? – De fato, essas primeiras consequências, contrariamente ao que se poderia talvez esperar, não nos parecem de forma alguma tristes e sombrias, mas, pelo contrário, como uma espécie de luz nova, difícil de descrever, como uma espécie de felicidade, de alegria, de serenidade, de encorajamento, de aurora...De fato, nós, filósofos e, “espíritos livres”, sabendo que “o Deus antigo está morto”, nos sentimos iluminados de uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, de espanto, de apreensão e de expectativa – enfim, o horizonte nos parece novamente livre, embora não esteja ainda tão claro – finalmente nossos navios podem voltar a içar as velas, navegar diante do perigo, todos os imprevistos do acaso daquele que procura o conhecimento são novamente permitidos; o mar, nosso pleno mar, se abre de novo diante de nós e talvez jamais tenha havido um tão “pleno”. (NIETZSCHE, 2001, §343).

Bibliografia:

BORNHEIM, G. O existencialismo de Sartre. In: Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989.

NIETZSCHE, F. W. A gaia ciência. São Paulo: Companhia da Letras, 2001.

PFEIL, L. C. A moral em Sartre: uma porta para o impossível? In: Sartre e seus contemporâneos. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2008.

SARTRE, J. P. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção Os Pensadores).


[1] Por Marcelo Inague Júnior, graduando em filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

[2] PFEIL, L. C. A moral em Sartre: uma porta para o impossível? In: Sartre e seus contemporâneos. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2008. p. 151.

[3] Ibid, p. 152.

[4] SARTRE, J. P. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 13 (Coleção Os Pensadores).

[5] Dostoiévski: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”.

[6] SARTRE, J. P. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 16 (Coleção Os Pensadores).

[7] BORNHEIM, G. O existencialismo de Sartre. In: Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989. p. 237.

Um comentário:

Robson Xavier disse...

oi!

esse e o meu blog.

FILOSOFIA&VIDA

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